18 de junho de 2015

Hung Bao virtual

Chineses usam smartphones para dar dinheiro de presente no Ano-Novo lunar

Enquanto jantavam com a família para comemorar o Ano-Novo lunar, na última quarta-feira (18), milhões de chineses tinham um motivo a mais para não se desgrudar de seus celulares. Para muitos, o smartphone virou um cofre virtual.
A antiga tradição chinesa do "hongbao" (envelope vermelho), de presentear amigos e familiares com dinheiro vivo no Ano-Novo, uniu-se a uma mania nacional da atualidade, o serviço gratuito de mensagens instantâneas Wechat (semelhante ao WhatsApp).
Graças a um aplicativo que permite associar o cartão bancário à conta do Wechat, os envelopes vermelhos migraram em massa para os celulares, gerando uma explosão de mensagens instantâneas recheadas de dinheiro.

Empresas aproveitaram o recurso para distribuir envelopes virtuais e cativar clientes. Mas foi o programa de Ano-Novo da TV estatal, recordista de audiência no país mais populoso do mundo, que chacoalhou os chineses –literalmente.

Os apresentadores pediam aos espectadores que balançassem os celulares, numa das funções do Wechat, para ter a chance de ser presenteado com envelopes vermelhos com dinheiro.
O serviço registrou nada menos do que 11 bilhões de chacoalhadas durante as quatro horas de programa. O pico foi às 22h34, quando o ritmo atingiu 810 milhões de balanços por minuto e 120 milhões de envelopes enviados.

Ao mesmo tempo, os usuários usavam o Wechat para enviar seus presentes de Ano- Novo, geralmente quantias terminadas em 8, número da sorte para os chineses. Mais de um bilhão de envelopes vermelhos foram enviados na virada do ano lunar, segundo a empresa, 200 vezes mais que no ano anterior.

Com 1,1 bilhão de contas registradas, metade ativa, o Wechat se tornou para a China mais que um serviço de mensagens instantâneas. Com funções semelhantes às do Facebook (proibido no país), é hoje a principal rede social da China.

Isso significa um enorme potencial para os negócios, principalmente com o desenvolvimento de recursos de pagamento e transferência de dinheiro. Cerca de 8 milhões de empresas têm contas oficiais no Wechat.

As maiores companhias de internet do país, como Tencent (dona do Wechat), Alibaba, Sina e Baidu lançaram promoções de Ano-Novo para ganhar uma fatia do maior mercado de pagamento eletrônico do mundo, que no ano passado movimentou algo em torno de R$ 1,2 bilhão.

Até o "Diário do Povo", jornal do Partido Comunista, aderiu ao fenômeno, enviando envelopes digitais com até 10 mil yuans (US$ 4.600) aos usuários de seu aplicativo de celular.
A explosão dos envelopes vermelhos eletrônicos gerou debate no país, entre os que aplaudiram a adaptação da antiga tradição aos tempos modernos e os que criticaram a obsessão por dinheiro.
"Não é à toa que alguns acham que os envelopes vermelhos digitais estão destruindo o Festival da Primavera", diz um artigo da agência de notícias oficial, Xinhua, citando o outro principal feriado chinês. "Imagine um filho que viajou mil quilômetros para passar o Ano-Novo em casa colado no celular e ignorando os pais".

Acredita-se que o hongbao tenha surgido na dinastia Qin (pronuncia-se tchin, 220-206 AC), quando dava-se de presente dinheiro preso a uma fita vermelha, cor que afasta os maus espíritos, segundo uma crença chinesa. Popular no Ano-Novo e em outras ocasiões especiais, o envelope vermelho também tornou-se uma forma de suborno.

Em 2014, o governo apertou o controle sobre as transferências de dinheiro pelo Wechat, como parte de sua campanha anticorrupção.


MARCELO NINIO
DE PEQUIM
28/02/2015 02h30