13 de outubro de 2011

Placa Votiva Shao Lin

Placa Votiva Shao Lin
A Placa Votiva Shao Lin é um símbolo utilizado nas academias desse estilo de kung fu para lembrar a todos os alunos dos princípios mais importantes.
Geralmente na cor vermelha e disposta próxima às fotos dos mestres falecidos e com pequenos altares logo abaixo, ela possui uma forte presença confucionista - prega a retidão moral, o respeito à hierarquia e aos ritos - e recorda ancestrais importantes de caráter divino.

Segundo o mestre acupunturista Pan Yi Bo - autor da tradução - a escrita é arcaica e disposta de uma maneira clássica, uma maneira mais simbólica do que uma escrita comum.

Keith Stevens fez as seguintes observações:
Placas são frequentemente encontradas nos altares chineses. Fabricadas em madeira, apresentam muitas variações locais e estilos diversos. Elas também possuem um número significativo de papéis e funções. Os chineses geralmente acreditam que toda pessoa possui três almas. Quando uma pessoa morre, sua primeira alma é enterrada com o corpo, a segunda é conduzida à sua placa ancestral e a terceira é enviada para o Submundo, para julgamento e eventual renascimento. As placas normalmente mais encontradas, portanto, são as ligadas à ancestralidade. Cada placa representa o repositório para o espírito de uma pessoa ou de marido e mulher. Elas geralmente são mantidas em casa, onde são reverenciadas pelos descendentes [da pessoa falecida]. Alternativamente, podem ser encontradas em salões especiais nos templos budistas. Os benefícios obtidos com as preces ditas pelos monges auxiliam os espíritos dos mortos no Além; ao mesmo tempo, desobrigam as famílias do oferecimento regular de incenso aos espíritos que habitam nas placas. Há, também, placas ancestrais dedicadas a uma geração inteira dentro de um clã. Elas são mantidas com placas de outras gerações no altar principal do templo do clã. Outras placas nos altares representarão uma divindade (ou grupo de divindades). Estas são geralmente vistas apenas em templos rurais, onde o custo do entalhe de uma imagem é muito alto para a comunidade. Entretanto, várias podem ser vistas em altares de templos mais ricos, ficando aos pés da divindade principal e funcionando como representações adicionais. Finalmente, há placas muito superiores [em qualidade] - raramente vistas hoje em dia - dedicadas ao imperador da época em que foram produzidas. O título imperial não estava na placa; ela simplesmente lhe desejaria vida longa. Essas placas costumavam ser obrigatórias em todos os principais templos taoístas e budistas. Elas ficavam na extremidade do altar principal. Através das placas, os oficiais locais saudavam o imperador em seu aniversário e no Ano Novo Lunar

Ideogramas da Placa Votiva Shao Lin
Ideogramas da Placa Votiva Shao Lin

Definições:
(1) – Título – Os ideogramas iniciais da placa do Shaolin do Norte (leitura da esquerda para a direita) possuem um direcionamento confucionista. Segundo o médico acupunturista Pan Yi Bo (tradutor), os ideogramas podem ser traduzidos por algo como “Mestre Exemplar, Modelo Eterno”, título tradicionalmente atribuído a Confúcio.

(2) – Código Ético 1 - Nessa coluna (leitura de cima para baixo), segundo o tradutor, está delineado o papel do verdadeiro mestre de uma arte marcial. Literalmente, os ideogramas poderiam ser traduzidos por algo como “Ensinamento de Cultura, Filosofia e Artes Marciais – para Servir o Mundo”. Novamente, a presença é confucionista, ligada, aparentemente, aos valores fundamentais de Reverência Fraternal (Ti), Propriedade (Li), Honradez (I) e Integridade.

(3) – Código Ético 2 – Nessa coluna (leitura de cima para baixo), segundo o tradutor, está uma afirmação da qualidade da arte ensinada. Os ideogramas podem ser traduzidos por algo como “Conhecimento correto, forma, maneira, técnica, princípios – arte marcial ministrada é original e correta.” Aqui, os elementos se ligam, em um primeiro momento, à afirmação da qualidade do mestre; a “tradução confucionista” se dá pela associação com os princípios de Lealdade (Hsin) – para com os alunos, Propriedade (Li) – dos conhecimentos, Honradez (I) – na afirmação chancelada, por escrito, dos conteúdos que o mestre domina, e Integridade (Lien) – na correção e originalidade dos ensinamentos.

(4) – “Oferecer” - Aqui, mais uma vez, está presente um elemento confucionista. “Oferecer”, sem dúvida, remete ao mandamento confucionista de “Servir o Mundo”.

(5) – “Servir” – A palavra é a própria essência do Confucionismo, na razão em que remete à virtude e ao desprendimento como qualidades fundamentais ao ser humano correto.

(6) – “Zhou Tong” –. A primeira referência encontrada relaciona Zhou Tong (o “Pequeno Rei”) a Yue Fei. Ele teria ensinado ao general de Song as técnicas de um estilo de Kung-Fu chamado Chuojiao (Shuai Jiao). A segunda referência é literária: Zhou Tong é um dos personagens da novela clássica “Os Fora-da-Lei do Pântano” (também conhecida como “Crônicas da Margem das Águas”), escrita entre 1290 e 1400 por Shi Nai’na e Luo Guanzhong. A novela se refere a fatos reais ocorridos no período de vida de Yue Fei.

(7) – “Zu Lai Tzu” – De todos os componentes da placa, este foi o de tradução mais incerta. Em princípio, Zu Lai é um termo budista chinês oriundo da transliteração do termo indiano Vairocana, “aquele que vem com o sol”. No Budismo Mahayana, Zu Lai (Vairocana) seria a contraparte cósmica de Sakyamuni (saiba mais). O mais intrigante, em relação ao termo, é a terminação Tzu, que, em princípio, poderia ser traduzida como “Venerável” ou “Sábio”. Provavelmente essa terminação possa não ser aplicada à divindade, uma vez que, normalmente, designa seres humanos. Além disso, há que se considerar o contexto da placa: em um elemento iconográfico quase que exclusivamente confucionista, a presença de uma figura budista altamente esotérica parece incongruente.

(8) – “Zhang Xian” – Genro de Yue Fei, se manteve leal a ele. Acabou preso, executado e sepultado junto com o sogro e com o cunhado, Yue Yun.

(9) – “Yue Yun” – A referência, nesses ideogramas, é a um indivíduo, mais propriamente a Yue Yun, filho mais velho de Yue Fei. Yue Yun viveu na passagem entre o período das chamadas “Cinco Dinastias e Dez Reinos” e a Dinastia Song. As cinco dinastias foram Liang Posterior, Tang Posterior, Jin Posterior, Han Posterior e Zhou Posterior; os dez reinos foram Wu, Shu Inicial, Wu Yue, Min, Tang do Sul, Chu, Han do Sul, Nan Ping, Shu Tardio  e Han do Norte (saiba mais sobre as dinastias clicando aqui). A época, que sucedeu à Dinastia Tang, e antecedeu à Dinastia Song, foi de violentos confrontos pelo poder. Por volta de 1130, as tropas da Casa de Song, lideradas pelo general Yue Fei, haviam imposto sérias derrotas ao reino de Jin e estavam prestes a dominar a cidade de Kaifeng. Por instigação de um traidor chamado Qin Hui, o imperador Gao Zong foi convencido de que deveria abandonar o combate e adotar uma estratégia de paz e alianças. Por conta disso, Yue Yun, Yue Fei e Zhang Xian foram chamados a Nanjing, onde acabaram presos. Foram executados em 1141.

(10) – “Genealogia Shaolin” – A finalidade do texto central da placa do Shaolin do Norte é indicar a origem do estilo praticado. Tanto, que os dois primeiros ideogramas (leitura de cima para baixo) são Sao e Lin (Shaolin). A coluna ainda relaciona os nomes de Ta Mo (Bodhidharma) como fundador da arte marcial e, também, o de Yue Fei/Yue Wei.

(11) – “Sao Lin” (Shaolin) – “Bosque [do Pico] Shao ”, nome do mosteiro construído por volta de 495 na cadeia de montanhas Song (Songshan), em Henan.

(12) – “Fundador” – Os dois ideogramas identificam Ta Mo como fundador da marcialidade em Shaolin.

(13) – “Ta Mo (Bodhidharma)” – Considerado o patriarca do Zen Budismo, Bodhidharma teria chegado à China no início do século VI. Ele teria vivido no mosteiro de Shaolin por sete anos, entre 520 e 527. Segundo a tradição das artes marciais, ele teria ensinado aos monges uma série de técnicas respiratórias que estariam na base do estilo de luta originário do templo.

(14) – “Yue Fei/Yue Wan” – Como observado no item 9, Yue Fei foi um general da Dinastia Song. Ainda sobre este personagem, vale observar que ele foi alçado à condição de divindade pela religiosidade popular. Herói nacional, passou a ser reverenciado como padroeiro dos exércitos e, no norte da China durante a primeira metade do século XX, como “Deus da Guerra”. Em tempos recentes passou, também, a ser a divindade tutelar de mercadores e lojistas (em Beijing, ainda hoje os lojistas chacoalham seus ábacos pela manhã para homenagear Yue Fei).


FONTES: 
Dissertação de mestrado "Shaolin à Brasileira: Estudo sobre a Presença e a Transformação de Elementos Religiosos Orientais na Arte Marcial Chinesa Praticada no Brasil" (2004 no Departamento de Ciências da Religião da PUC-SP pelo professor da Senda Rodrigo Wolff Apolloni); e http://www.shaolincuritiba.com.br/votiva.html